Não vivo de poesia, vivo a poesia.

sábado, 29 de junho de 2013

Sede


O coração sequioso
Incessante espírito
Insolente alma
Insensato
Sabor
Com
Dor

O coração valoroso
Incessante amor
Nunca frio
Mas com
Ardor
Calor


Lorena Sabino

Na Vitrine



De repente
A poesia se oculta
Em uma inexpressão
Em um momento que foi inoportuno
Você quis que ela se aflorasse
Que nascesse sobre uma rocha
Mas este momento ficou em uma vitrine
Eu só podia ver de longe
Não podia ouvir
Nem sentir
Pareceu com algo muito caro
Que nunca sairia dali
Como se você fosse um boneco
Imperceptível à minha poesia.

Lorena Sabino

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Versos a Corina - VI

No delírio
De te amar — olvidei as lutas e o martírio;
Eras tu. Eu só quis, numa ventura calma,
Sentir e ver o amor através de uma alma;
De outras belezas vãs não valeu o esplendor,
A beleza eras tu: — tinhas a alma e o amor.
Pelicano do amor, dilacerei meu peito,
E com meu próprio sangue os filhos meus aleito;
Meus filhos: o desejo, a quimera, a esperança;
Por eles reparti minh'alma. Na provança
Ele não fraqueou, antes surgiu mais forte;
É que eu pus neste amor, neste último transporte,
Tudo o que vivifica a minha juventude:
O culto da verdade e o culto da virtude,
A vênia do passado e a ambição do futuro,
O que há de grande e belo, o que há de nobre e puro.

Deste profundo amor, doce e amada Corina,
Acorda-te a lembrança um eco de aflição?
Minh'alma pena e chora à dor que a desatina:
Sente tua alma acaso a mesma comoção?

Em vão! Contrário a amor é nada o esforço humano,
É nada o vasto espaço, é nada o vasto oceano!

Vou, sequioso espírito,
Cobrando novo alento,
N'asa veloz do vento
Correr de mar em mar;
Posso, fugindo ao cárcere,
Que à terra me tem preso,
Em novo ardor aceso,
Voar, voar, voar!

Então, se à hora lânguida
Da tarde que declina,
Do arbusto da colina
Beijando a folha e a flor,
A brisa melancólica
Levar-te entre perfumes
Uns tímidos queixumes
Ecos de mágoa e dor;

Então, se o arroio tímido
Que passa e que murmura
À sombra da espessura
Dos verdes salgueirais,
Mandar-te entre os murmúrios
Que solta nos seus giros,
Uns como que suspiros
De amor, uns ternos ais;

Então, se no silêncio
Da noite adormecida,
Sentires — mal dormida —
Em sonho ou em visão,
Um beijo em tuas pálpebras,
Um nome aos teus ouvidos,
E ao som de uns ais partidos
Pulsar teu coração;

Da mágoa que consome
O meu amor venceu;
Não tremas: — é teu nome,
Não fujas — que sou eu!

Poesia, Crisálidas, 1864. Machado de Assis.

Erro

Erro é teu. Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na fantasia
E não chega ao coração;
Não foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão;
Um querer indiferente,
Em tua presença, vivo,
Morto, se estavas ausente,
E se ora me vês esquivo,
Se, como outrora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés,
É que, — como obra de um dia,
Passou-me essa fantasia.

Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frívolas quimeras,
Teu vão amor de ti mesma,
Essa pêndula gelada
Que chamavas coração,
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender;
Foram baldados tentames,
Saiu contra ti o azar,
E embora pouca, perdeste
A glória de me arrastar
Ao teu carro... Vãs quimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras...

Poesia, Crisálidas, 1864. Machado de Assis.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Verdades Sobre as Férias

Nas férias é bom porque,

Da pra lavar o cabelo com mais frequência
Por a conversa em dia com o porteiro
Ficar flertando com o nada
Ver os filmes idiotas
Olhar o céu
E...
Até compor um poema
De
Cres
Cente.

Lorena Sabino 
Goiânia 25 de junho de 2013.

Aos Platônicos



Como se pode, então
Admirar
Só por se observar
Ver
Talvez foi um perfume
Um olhar entrelaçado
Vago
Uma beleza discreta
Porém única
Uma presença
Que dá vontade de sentir
Mas nada justifica
Uma inclinação
Sem ao menos conhecer
Quem explica
Quem compreende
Caso sério
Prejudicial
Não faz bem ao coração
Viver só de ilusão.


Lorena Sabino